Textos do II Simpósio Internacional Edith Stein

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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A TRÍPLICE ESTRUTURA DO SER HUMANO: UMA CONCEPÇÃO ANTROPOLÓGICA

Carlos Daniel Nascimento


O homem foi o centro da pesquisa de Edith Stein, constado na seguinte citação: “fui me encaminhando para algo que se encarnava pessoalmente em mim e que ocuparia todos os meus estudos futuros: a constituição da pessoa humana”. (STEIN apud GARCIA, 1987, p.55). Edith se sentia entusiasmada nessa busca através dos questionamentos: o que constitui o ser humano? Onde se firma a dignidade de sua pessoa?

O ser humano busca sua realização numa estrutura que vive harmonicamente. Essas estruturas que fazem parte do homem são, segundo Edith Stein, o espírito, a alma e o corpo. Edith tem a preocupação em estudar a pessoa humana em seus aspectos mais profundos, mas reconhece a complexidade desse estudo, pois cada homem é único, tendo, cada um, sua particularidade irrepetível.

É muito natural que tomemos nosso ponto de partida naquilo que nos é mais próximo, ou seja, a natureza humana. E ao tratar da natureza do homem, pensamos na essência do homem enquanto tal, compreendendo o fato de ser ele pessoa. (STEIN, apud GARCIA, 1987, p. 57).

Somos então chamados a observar as características particulares do ser pessoa das pessoas criadas e finitas. E a partir deste ponto de vista considerado tão objetivo, temos por base a natureza humana, porque toda a criação está compreendida no nexo entre o espírito e a matéria. Falando da natureza do homem, podemos pensar em sua essência enquanto tal, que Edith Stein compreende o fato de ele ser pessoa. Portanto, a essência do homem é ser pessoa. A essência é aquilo que faz com que o homem seja homem, e não outra coisa.

2.1 O homem enquanto espírito

O homem tem um atributo particular que o faz ser pessoa, é o fato de ele ser espiritual, ou seja, possui algo interno, um centro, a partir do qual se constitui, tendo posse de si mesmo. Nessa posse de si, o homem tem a capacidade de entrar e sair de si mesmo. Esse entrar e sair de si são características necessárias para a constituição da pessoa. Tendo sua vida espiritual, o homem pode sair de si mesmo, podendo entrar no mundo que se mostra a ele (fenomenologia) sem perder nada de si mesmo. Dessa forma, o homem lança para fora de si sua essência, e se expressa também espiritualmente, atuando pessoal e espiritualmente.

O fato de o homem ser espiritual permite que ele se conheça e tenha posse de si, podendo dominar os seus atos. “Mas o espírito humano está condicionado pelo que lhe é superior e inferior: está imerso num produto material que é a alma e forma em vista de sua forma corporal.” (STEIN, 1996, p.380). O homem traz consigo e abarca seu corpo e sua alma, mas ao mesmo tempo deixa-se levar por eles.

A vida espiritual do homem é como uma chama que se acende saindo de um lugar tenebroso. Essa chama se alimenta de uma matéria que não brilha; brilha, porém não é inteiramente luz: é o espírito humano (que é visível para si mesmo), porém não é totalmente transparente.

O espírito tem o conhecimento através da luz interior: ele tem o conhecimento de sua vida no momento presente, e em grande parte do seu passado. O passado é capaz de conter em si falhas; o futuro, que não é seguro, só pode ser previsto de forma parcial, só pode ser visto com probabilidades, uma vez que é incerto, indeterminado. Se nos detivermos à consciência, o futuro é absolutamente inacessível. Sua procedência e seu fim são inteiramente inacessíveis.

E a vida imediata e certa do momento presente é o cumprimento fugitivo de um instante que cai rapidamente e pronto se nos escapa por completo. Toda a vida consciente não abarca meu ser; se parece com uma superfície iluminada por cima de uma profundidade sombria, que se manifesta através desta superfície. (STEIN, 1996, p. 380).

A palavra espírito passou a ser usada porque antes a palavra alma era utilizada para denominar tudo aquilo que não era corporal. Normalmente se fala corpo e alma. Husserl e seus discípulos, entre eles está Edith Stein, passaram a analisar a alma em duas partes: a primeira se refere aos impulsos psíquicos. Os atos psíquicos não são desejados por nós, ou seja, não temos a intenção de realizá-los, uma vez que esses impulsos não são dominados por nós. Além do mais, nós não somos a procedência deles, e também não os provocamos, porém os achamos. Se ouvirmos um barulho muito alto, certamente teremos medo. O medo não é desejado por nós, mas é uma reação que ocorre. Essa é a parte psíquica. A segunda se refere aos atos da compreensão. Essa parte que reflete, avalia, controla e decide é chamada de espírito.

No eu se apresenta também uma outra série de fenômenos que são caracterizados pelo fato de se dirigirem intencionalmente para algo: eles são os ‘atos’ ou vivências intencionais, pelas quais começa a vida espiritual. Também na vida psíquica é possível descobrir uma forma básica de intencionalidade, mas ela é apenas esboçada. Se analisarmos alguns atos que realizamos diariamente, ficamos cientes do significado da intencionalidade. E. Stein oferece, com a pontualidade e a clareza que a distingue, algumas orientações muito precisas para identificar tais atos. Assim, ensina-nos a dirigir o nosso olhar para a nossa interioridade, ou seja, para a descoberta dos atos nela presentes. Tal ato, por sua vez, é muito importante, porque nos permite entender todos os outros atos e inclusive a nós mesmos: é precisamente o ato de reflexão. (BELLO, 2000, p. 148-149).

Essa análise fenomenológica que Edith Stein faz dos atos do ser – humano é necessária para que se chegue a uma melhor compreensão da estrutura do ser - humano. Por meio dessa apreensão fenomenológica, Edith conseguiu chegar às dimensões mais apuradas do ser – humano: corpo-psique-espírito. Partindo da análise da conduta humana, deduzimos que a alma existe, e é percebida em dois momentos: a dimensão psíquica e a dimensão espiritual. Sem dúvidas, todas as dimensões são conectadas com exatidão. O espírito não poderia viver sozinho, pois ele reside na base psíquica e corpórea. Existem casos onde corpos podem viver sozinhos sem a intervenção da alma e do espírito, no entanto o ser humano possui, em potência, essas três características.

2.2 O homem enquanto alma

O homem possui também uma alma, e esta é um vínculo que une o corpo e o espírito. Sendo assim, ela pode participar tanto da vida sensível quanto da vida espiritual. A alma é essa estrutura que fica entre o espírito e o corpo. “Possuir alma significa estar dotado de um centro interior onde ecoa tudo o que vem de fora e de onde procede tudo o que se verifica na conduta corpórea” (STEIN apud FERREIRA, 2001, p.149).

A alma, segundo a concepção de Santo Tomás, que se baseia em Aristóteles, é a forma essencial de todo ser vivente, e se diferencia quanto aos níveis de sua formação. A alma pode produzir uma matéria viva ou uma vida interior que pode ser sensitiva ou espiritual.

A alma pode ser classificada por meio de uma hierarquia feita a partir de suas ações. A alma das plantas se diferencia da dos animais e da dos homens. A alma da planta é uma alma vital, pois a planta é uma matéria orgânica viva. A alma do animal é uma alma sensitiva, uma vez que o animal se utiliza de seus sentidos para conhecer aquilo que se manifesta a ele por meio de sensações. A alma do homem é considerada racional por causa de sua capacidade de refletir. Edith considera essa hierarquia quanto ao desenvolvimento de suas ações. Os seres de graus superiores, como o homem, realizam, além da sua particularidade, as características dos seres inferiores, como os animais e as plantas. Portanto, o homem agrega ao que lhe é particular a atividade das plantas e dos animais; e o animal agrega a sua atividade particular a atividade das plantas.

Podemos evidenciar, então, a forma, explicitando seu sentido. Enquanto observamos o produto material inanimado, ou seja, sem alma, vemos que isso é uma particularidade exclusiva deste ser material, que se mostra através de formas. A distinção específica entre as formas vivas e as inanimadas é: as formas vivas são superiores por estarem acima da matéria, podendo unir uma diversidade de produtos materiais existentes, organizando-os.

Temos afirmado (com Hedwig Conrad-Martius) que a particularidade da alma consiste em ser o próprio núcleo do ser vivo e a fonte escondida de onde este ser vivo toma seu ser para aparecer como forma visível. O produto material inanimado chega a ser um real que aparece por si mesmo e é autônomo, formado de uma maneira especial e uniforme, mas não a partir de seu próprio núcleo de algo interior. (STEIN, 1996, p. 384).

A alma, sendo o núcleo do ser dos materiais vivos leva em si a potência de autoformação. Cada alma particularmente é um mundo interior selado, não podendo separar-se do corpo nem do mundo real em que vive para viver de maneira autônoma. Porém não se pode dizer que no animal a alma só serve para servir o corpo, estando submissa a esse; porém deve haver um equilíbrio entre o exterior e o interior. Na planta, há um prevalecimento do externo; no homem, a distinção entre alma e corpo fica mais evidente, pois cada uma das partes possui seu significado próprio.

A divisão tradicional tripartida: corpo- alma- espírito não deve entender-se como se a alma do homem fosse um terceiro reino entre outros dos que existem independentemente dela. Nela, a espiritualidade e a vida sensível se coincidem e se enlaçam. (STEIN, 1996, p.386).

“A alma é todo o espaço médio do todo formado pelo corpo, a alma e o espírito” (STEIN, 1996, p.386). A alma, enquanto sensível, mora em todo o corpo, formando-o e mantendo-o. A alma, enquanto espiritual, transcende além de si mesma e olha para um mundo que ultrapassa o seu próprio eu (um mundo de coisas e pessoas). Comunica-se com esse mundo através de sua inteligência. Eis a concepção de alma que Edith Stein concebe: Aparece como a ação combinada de forças diferentes: a força sensível, que se apresenta a respeito da apreensão dos dados sensíveis e nos impulsos sensíveis, e a força espiritual, que é uma força totalmente nova e diferente da primeira e se manifesta nas atividades e capacidades espirituais. Na alma se estabelece tudo o que vem dos sentidos e do espírito. Na alma se observa a explicação interior com seus elementos.

A pessoa, sendo livre, é dona de seus atos, determinando, assim, sua vida. Por exemplo, a decisão de ir ou não para um passeio é feita com mais superficialidade do que a decisão que alguém toma para a escolha de uma profissão. Essa decisão advém da alma que está presente na vida do eu.

A alma assume uma dupla função: quanto a sua vida espiritual, ela se eleva acima de si mesma e quanto ao corpo ela é semelhante aos animais. Essa diferenciação pode ser entendida na diferença que há entre a alma sensitiva e a alma espiritual. A alma sensitiva possui uma semelhança com a dos animais por causa dos instintos.

2.3 O homem enquanto corpo

O corpo do homem não é constituído somente de massa corpórea, mas ele possui uma alma, ou seja, ele possui um corpo animado. O homem reside em seu corpo como num “domicílio inato”, tendo consciência do que se passa e como se passa nele. O que é corporal não pode ser observado como somente corporal. O que vai diferenciar uma massa corpórea de um corpo animado é o fato de um corpo animado possuir uma alma. Onde há uma alma, há um corpo animado e onde há um corpo animado, também existe uma alma.

Quanto ao corpo, o homem não possui plena liberdade de movimento em relação a ele, pois não pode observá-lo de todos os lados, de todos os ângulos, uma vez que não pode sair de si para observar-se. Porém, não se pode se prender à observação externa, pois o homem pode perceber-se de dentro. Esse perceber-se de dentro é possível porque como já foi dito o corpo não é só uma massa corpórea: é constituído de uma alma, que o faz corpo animado.

As sensações físicas fazem parte da vida do homem assim como os seus pensamentos, seus sentimentos. Por exemplo: uma dor de cabeça, uma dor de dente, uma sensação de frio; tudo isso toca o corpo do homem. Aquilo que tem contato com o corpo do homem tem contato com este também, pois o homem está presente em todas as partes do seu corpo.

Partindo desse pressuposto, entendemos que o processo do corpo humano pode ser inserido na vida pessoal. Cada movimento de minha cabeça, feitos com certa intencionalidade, com a livre disposição da minha vontade, constituem atos pessoais. O corpo, tomado como o instrumento das minhas ações, pertence à unidade de minha pessoa. O “eu” do homem não pode ser visto somente como um eu puro, nem unicamente como um eu espiritual, mas também como um eu corporal.

Partindo desses atos e através deles, chegamos à conclusão de que existe um corpo em relação a um mundo externo. Conhecemos as coisas físicas através da corporeidade. O homem busca o sentido das coisas que se apresentam a ele, como já vimos na fenomenologia (aquilo que se mostra). Essa busca se dá através da análise do sujeito humano. Por exemplo, um copo d’água. Enquanto existente esse copo está fora, no exterior; porém enquanto visto e tocado pelo homem, ele está no interior, pois ao vê-lo ou tocá-lo, ele se torna seu. Há uma experiência pessoal, por isso é considerado dentro de si.

Para Husserl, o fundador da fenomenologia, a percepção é uma porta para se adentrar o ser - humano, ou seja, para compreender de que e como ele é feito. Este destaca que nós estamos em contato com o mundo físico, que é percebido por nós. A percepção leva-nos a “dar-nos conta” das coisas. Esse “dar conta” é a consciência. Por exemplo, ver e tocar são atos conscientes, vivenciados. Ser consciente é olhar para uma coisa e dar conta de que a está vendo, ou tocar uma coisa e ter consciência de que a está tocando.

A consciência tem dois níveis. O primeiro nível da consciência se refere aos atos perceptivos, eles acontecem quando vemos ou tocamos as coisas e nos damos conta delas. O segundo nível se refere aos atos reflexivos; estes são atos exclusivos da pessoa humana, pois os animais não passam do primeiro nível. Quando um cão e um gato se vêem e se tocam eles só têm o primeiro nível de consciência.

Vejamos como exemplo, o desenvolvimento infantil. Uma criança que avança passo a passo apreende a sua corporeidade através dos contatos físicos, percebendo seus limites. As pessoas adultas não refletem a todo o momento sobre os limites corporais, mas elas têm consciência deles.

São diversos os motivos pelos quais nosso corpo atua: o impulso, os instintos, as reações. Nosso corpo tem a capacidade de senti-los, registrá-los e reagi-los. Por exemplo, quando ouvimos um barulho não muito forte, podemos sentir apenas uma reação de incômodo, contudo, sendo muito forte, podemos sentir medo.

Nesse ponto, identificamos outros atos que não são de caráter psíquico, como o impulso de beber, nem de caráter corpóreo porque o corpo nos manda a mensagem de beber, mas não pegamos o copo. Portanto, podemos controlar o nosso corpo e a nossa psique. Estamos registrando o ato de controle, mas este não é de ordem psíquica nem de ordem corpórea, e nos faz entrar numa outra esfera a que os fenomenólogos chamam de esfera do espírito. (BELLO, 2006, p. 39).

2.4 O conceito de pessoa

Através de um estudo de Edith Stein, pode-se perceber que em todas as suas obras, o ponto fundamental de todos os seus interesses é a pessoa humana. A sua originalidade em conceituá-la é notável.

Edith Stein percebe que somente o ser humano pode pronunciar “eu”; somente o ser humano pode perceber-se; somente este pode captar a alma do outro que o cerca. “Ser pessoa quer dizer ser livre e espiritual. Que o homem é pessoa: isto é o que o distingue de todos os seres da natureza” (STEIN, 1998, p.141).

Somente seres que são particulares e que possuem uma natureza dotada de razão podem ser chamados de “pessoa”. “O termo pessoa indica o que é mais perfeito em toda a natureza, a saber, uma coisa que subsiste em si mesma e uma natureza dotada de razão [...]” (AQUINO apud STEIN, 1996, p. 373).

Uma criatura, para que seja considerada como uma criatura dotada de razão, deverá ser capaz de compreender a norma de seu próprio ser e colocar-se dócil a ela através de seu comportamento. Deve-se, portanto, utilizar o entendimento, a compreensão e a liberdade, que é o dom de informar por si mesmo o comportamento propriamente dito. Isso pode ser constado na seguinte citação:

Mas se chama dotada de razão a uma criatura que pode compreender a norma de seu ser próprio e submeter-se a ela por seu comportamento. Convém agregar a isso o entendimento o dom de compreensão e a liberdade que é o dom de informar por si mesmo o comportamento propriamente dito. Se o feito de possuir a razão pertence ao ser pessoal, então a pessoa enquanto tal possui também necessariamente o entendimento e a liberdade. (STEIN, 1996, p.378).

Outra característica que Edith encontrou na pessoa foi o fato de ela ser livre e proprietária de seus atos, conforme consta na citação:

É livre porque é dono de seus atos, porque determina por si mesmo sua vida inferior a forma de atos livres. Os atos livres são o primeiro campo do domínio da pessoa. Porém toda a natureza humana que lhe é própria lhe pertence, posto que ela influa por sua ação sobre a informação do corpo e da alma. (STEIN, 1996, p.391).

A pessoa pode, por motivo de sua liberdade, usar um caminho de busca por si mesmo. Nesse caminho, descendo às profundas verdades, ele poderá preferir ficar na superficialidade, ou se quiser, na profundidade. Logo, se a alma não atinge seu pleno desenvolvimento, é da responsabilidade da pessoa.

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